Demonstrando Que a Consciência Pode ter sido o Grande Erro em Razão de Um Evento Cósmico Insignificante.
Dias antes da semana que ficou
conhecida como “semana dos meteoritos”
os hotéis Morotin e Paraíso
despontavam em número de reservas. Muito em razão da sua popular vantagem
custo-benefício sobre os outros dois grandes hotéis que, volta e meia abrigavam
subcelebridades e novos empresários herdeiros de alguns milhares de dólares. Hotel Dom Rafael Premium e o Park Hotel Morotin[1].
Nenhum desses dois hotéis passavam por essa agitação naquela véspera. Prova de
que herdeiros e subcelebridades relegadas ao ostracismo não possuem fetiches oitentistas. Um contrastante sintoma de
boa saúde espiritual em comparação com a própria filosofia de vida dessas
entidades. O Camping improvisado da
Chácara dos Pés tornou-se ali o ninho da galinha dos ovos de ouro da temporada.
Seus donos também eram herdeiros conhecidos da cidade de Santa Maria, e também
estavam detestando toda a frenesi em torno de um evento – Segundo eles mesmos –
tão insignificante quanto aquele, mas que tinham interesse quase sexual pelo dinheiro. Ailton, Fernando e
Nilton, eram os três filhos mais queridos do Senhor Leônidas, fazendeiro
despótico, conservador, mesquinho, traiçoeiro, e portador de todas as demais
qualidades subentendidas nos adjetivos “fazendeiro” e “conservador”. A Chácara
dos Pés tornou-se um haras no aniversário de Ailton, o filho mais velho, que,
por sua vez, ganhou seu primeiro Puro Sangue aos 18 anos. Cinco anos mais
tarde, a Chácara – que era uma repartição da vasta propriedade rural de
Leônidas – contava com uma equipe inteira de veterinários e zootecnistas
especializados em equinos nobres, e uma equipe de doma profissional
orgulhosamente intitulada como “A nova doma humanizada de cavalos” ou “A doma
que pensa no bem-estar do seu cavalo” ou “A doma do amor” – sobretudo, a mais
enfaticamente importante – “Doma de Boas Mãos e sem esporas”. Essa equipe era
composta por uma família de ex-montadores
boiadeiros foragidos de Minas Gerais acusados pelo assassínio involuntário de
um boi de rodeio – cruzamento das raças Nelore e Marchigiana – por causar-lhe
uma overdose de Ketamina. Mas que
pareceu aos irmãos, no entanto, uma ótima ideia elege-los para os cuidados de
doma dos equinos.
2
Era dia 13. De dezembro. Período de
indecisão climática bastante típica de regiões pseudo-tropicais. O céu
limpo, claro, azul bebe, e os raios dourados do sol sem quentura, tonalizavam o
dia com preguiça e sutil desinteresse por trabalho. Pelo menos era assim que se
sentia Ailton diante do pai e cercado de estagiários da indústria agropecuária
da região, que a julgar pelas suas expressões, sentiam o mesmo que ele. Posava
de braços cruzados, os quais carregavam pulseiras de ouro. Camisa xadrez de
manga curta dentro das calças jeans. Cinto com fivela prateada adornada com o
que poderia ser ouro branco. Em alto relevo o desenho de dois bois Nelore, ou
bois Senepol, não importava. Mascava um fumo e cuspia de minuto em minuto. O
boné John Deere verde com o emblema
bordado em linha dourada sombreava o rosto sardento. Nos pés as botas de couro
de avestruz tinham cores mescladas na silhueta em tons de azul, como penas.
Sujas de lama preta na sola. A barra da calça jeans clara também continha
respingos escuros e crostas de terra. O corpo moderadamente acima do peso,
despojava-se totalmente à-vontade, com o semblante moderadamente apático, que
era também moderadamente apreciado pelo pai. Mas não muito. Até porque
discursava naquele momento sobre algo de extrema importância para o futuro da
sua fazenda de gado de corte. Este por sua vez se portava de maneira bem menos
rude, – o que à primeira vista pode parecer chocante – estava no auge dos 50
anos. Era alto, tinha ombros largos e mãos na cintura calejadas e grossas,
porém com as unhas bem cortadas. O chapéu branco com uma pena verde e um broche
de nossa senhora de Fátima na fronte que reluzia como ouro a luz do sol. Na
verdade, reluzia como ouro porque era ouro. Vestia camisa manga longa de linho
azul bebe como o céu daquele dia; tinha a gola impecavelmente bem
engomada. Toda ela impecavelmente bem
limpa e impecavelmente bem passada. O Jeans escuro poderia conter quaisquer
resquícios de poeira, mas não aparentava estar sujo. Galocha preta de borracha
por cima da barra da calça com sola amarela pouco gasta. Leônidas era uma
imagem quase fantasmagórica rodeada de conjuradores de uma seita de camisas
xadrez e bonés John Deere. Havia ali
entre os 30 e poucos mais importantes empregados da sua fazenda, mais 16
estagiários de outras propriedades e 2 repórteres novatos de uma das revistas
mais importantes de agronegócio do Rio Grande do Sul. Entre as top 10, talvez fosse a décima. Ou a
décima primeira, não importava. O título “top 10” era o que importava.
Diante do curral de tamanho
considerável e cheio de gado, a pequena multidão se atinha ao homem levando as
mãos a cintura ostentando bigode grisalho nicotizado e vestido com roupas
aparentemente caras e limpíssimas. Curral imenso e retangular de proporção 40m
x 30m contendo um boi para cada 2 metros quadrados. Ou seja, muitos deles.
Ailton pensou que seria, inclusive, bastante divertido contá-los ao invés de
ouvir o discurso acalorado do pai, porém previu que seria provavelmente cobrado
pelos irmãos mais tarde a reproduzir aquele discurso para eles, uma vez que
naquele momento dormiam em suas camas King Size Victória Gel com duplo
amortecimento (realizando aquele desejo oculto dos corpos presentes no
descampado verde sob o céu azul bebê). E não precisaria ser todo ele, até mesmo
porque sua memória não era excelente. Conquanto que, conseguisse lembrar das
leis que o pai não infringiria mais, estava de bom tamanho. Fernando fazia
parte da equipe jurídica da administração da fazenda junto com Nilton. Ambos
advogados recém formados em uma daquelas faculdades pagas cujo os donos pouca
gente conhece bem as intenções salvo os escândalos de sonegação que são sempre
muito cristalinos. O ponto era que estavam cansados de driblar fiscalizações e
multas em prol do capricho antiquado do patriarca. Qualquer anuncio de mudança
era para eles uma grande notícia, portanto.
Era 10:45 da manhã. A seita de
camisas xadrez e bonés John Deere havia rodado as partes mais essenciais
da propriedade quase infinita. A granja, o alambique, o plantio de soja, o
plantio de milho, a ordenha das vacas – agora equipada com um maquinário
automatizado que plugavam cilindros de metal nas tetas cheias de leite do
animal, exaurindo deles todo o liquido branco após horas a fio de sucção – e
aguardavam o Grand Finale que seria na câmara de corte. Enquanto os
bovinos ruminavam e se agitavam logo ao fundo, um dos novos redatores da
Revista Sul levantou o braço direito balançando a pontinha do dedo indicador
freneticamente. Todos voltaram a atenção ao pequeno rapaz de boné preto,
máquina fotográfica semiprofissional pendurada ao pescoço, camisa verde e jeans
apertado, corado pelo sol e pelo constrangimento.
Leônidas ergueu o queixo e as
sobrancelhas num gesto que poderíamos traduzir assim: “!”.
Puxou os lábios finos para baixo,
montando uma expressão quase perfeita de nojo. Apontou para o rapaz e disse.
— O guri aí.
Este armou rapidamente a postura e
foi. Olhava o velho de baixo se mostrando em cima de um pequeno palco
improvisado de mais ou menos meio metro.
—
Senhor Leônidas, me chamo Brian. Falo em nome da Revista Sul...
— Sei!
— Então... gostaria de saber do senhor
como ficará tua posição no agronegócio em relação ao acordo do Creas com a nova lei de n°5.095, dentro
da Instrução Normativa Nº 3 sobre o Decreto nº 24.645 de 1934 que desautoriza o
uso de marreta antes da sangria. – Encheu os pulmões de ar novamente ao
terminar e levou o lápis para o pequeno caderno na mão esquerda.
— Boa pergunta, guri. Boa pergunta!
Pergunta que irei responder mostrando a vocês o mais novo processo de insensibilização.
Estamos de acordo com todas as mudanças, é claro, desde que não fira nossas
tradições, nossas raízes, nossos valores. – Asseverou — Porém, pensando no
bem-estar do bichinho e nas novas leis, gravem isto, nas leis... que a Fazenda
da Restinga do Sul adota a partir de hoje o novo método de insensibilização. –
Leônidas pigarreou, esperou alguns segundos antes de voltar. Brian levantou a
mão novamente, mas foi interceptado pelo gesto de Leônidas: — Continuando...
— Pensando nas Leis. Pôs aí, guri? –
Leônidas apontava para o caderninho do rapaz que se prontificou em anotar.
— Pensando... nas... Leis. – Brian silabou mostrando ao senhor
Leônidas o polegar para cima com sorriso quase sincero, o qual ele ignorou
completamente.
—
Hoje vos apresento o Astramax 300 plus DD. – Leônidas balançou o
indicador calejado para um assistente ao lado de Brian, tão indiscernível na
aparência quanto seus companheiros da seita xadrez & John Deere. Ele
carregava uma maleta cinza fosca na mão direita pela alça. Chegou rapidamente a Leônidas destravando
seus feches metálicos com sonoros “Clack, Clack,”. A mão ossuda e desproporcional do velho
fazendeiro agarrou o que lá estava ainda como um mistério para a plateia. Houve
um som prazeroso de superfície lisa metálica se esfregando numa espuma
acolchoada.
Quando puxou da maleta para os olhos
do público, veio à tona o que parecia uma pistola com ponta cilíndrica e um
avantajado volume no calço do pegador. Logo atrás um pequeno pino com rosca que
supuseram todos que seria uma entrada para algum tipo de cabo ou peça. Era em
suma grande demais para uma arma de fogo, moderna demais para ser algo letal. E
que se todos soubessem definir talvez até alienígena demais para propósitos
terráqueos.
Todos assentiram com a cabeça
positivamente sem esboçar surpresa. Brian bateu uma foto com a câmera
semiprofissional. E Retornou.
—
Tri!
— A partir de agora os animais serão
abatidos de maneira humanizada com uma pistola de dardo cativo. Essa é a última
tecnologia de pistolas. Mais precisas, e mais fortes. Conectadas a esse tubinho.
– Mostrou ele voltando as costas do aparato para a plateia — vai o gás vindo do
cilindro de pressurização. Noutra ponta sai o dardo do tambor da pistola
diretamente para o crânio. Ou seja, sem sofrimento animal.
Ailton pensava aliviado que ele e seus
irmão não precisariam se preocupar mais com os ataques de ativistas veganos e
afins. Afinal, agora o abate era humanizado.
— A mudança no modo de abate tem a
ver com a pressão jurídica por parte dos órgãos de fiscalização sanitária,
senhor Leônidas? – Perguntou uma garota com seus 19 anos, boné John Deere
sobre os capelos louros, camisa xadrez vermelha por dentro da calça jeans
escura e apertada, rosto avermelhado pela falta de protetor solar e
arrependimento.
— De jeito maneira, guria. Eu não tô
no ramo há 50 anos para me dobrar prum bando de piazada cheia de
frescura. – Fechou o semblante e ajeitou o chapéu nervosamente — E tem mais, as
nossas tradições são as nossas tradições. Porém, lei é lei e como cidadão de
bem, seguimos ela, mocinha.
— Entendo... – respondeu ela.
— Meu pai, homem honrado demais,
nasceu aqui. Trabalhou aqui, construiu isso aqui.
— Que Deus o tenha, vovô. – Ailton
beijou o crucifixo preso a corrente de ouro no pescoço.
— O pai do meu pai também. E o pai,
do pai do pai do meu pai também... Com nossos valores acima de tudo. Sempre. –
Houve um silêncio enquanto Ailton dava palmas olhando os demais que entenderam
o recado, logo, resultando numa salva meia boca.
3
Uma fileira de camisas xadrez
variando cores entre o verde, vermelho e azul, se alongou pelo pátio de abate
bovino. O setor de insensibilização era a primeira ala, a qual antes de
entrarem recebiam roupas especiais e brancas para higiene do local e também
para fugir do espectro cromático dos ruminantes. Neutralizando o risco de um
possível ataque de stress.
Devidamente vestidos, seguiram
senhor Leônidas às suas ordens o caminho do abatedouro. De tapinha em tapinha
nas costas, cumprimentou os seis funcionários do abate, da lavagem, do
carregamento, da dilaceração. A fileira de pessoas seguia ao lado da fileira de
animais pré-selecionados mugindo calmamente pelos currais de descanso após
jejum de 24 horas dos animais. Iam em direção ao grande maquinário hidráulico
montado com mangueiras a jato de pressão média. Passaram pelo banho de aspersão
de água clorada. Um a um, saiam pingados mugindo agitados com os olhos pretos
como bolas de gude gigantes. Todos de pelagem branca. Com etiquetas enumeradas
na orelha. Com cicatrizes de ferro quente na coxa. Mugindo e pingando.
— Vejam como nossa estrutura mudou.
– Gritou senhor Leônidas. — Seguindo todos os protocolos.
Todos seguiam. Ailton era o último.
Gravava o maior número de informações que seu cérebro conseguia naquele
momento. Brian perguntou se poderia tirar algumas fotos.
— Antes da sangria, sim. Fique à
vontade.
Ele foi registrando sem medir o foco
da lente.
— Todos esses equipamentos são novas
aquisições e pensados na melhoria do abate e no bem-estar animal.
A fileira de humanos se distanciou
da fileira de animais subindo por uma escada de aço indo para uma estrutura
acima. De lá era possível observar sem interferir com contato visual ao bicho.
—
Antes não havia toda essa tecnologia. Aquilo se chama box de atordoamento, onde
o bovino é encaixado, vejam... – Leônidas apontou para baixo.
Logo a abaixo o caminho estreito
cheio de bovinos descia uma pequena rampa na qual ao fim dela uma placa de
metal se encaixava ao dorso do animal. Outras barras laterais estabilizavam a
anca e a coluna. Outra placa de metal comprimia as costas para que a placa
encaixada ao pescoço subisse imobilizando o corpo de quase uma tonelada.
— Vejam! Está tudo automático. Esse
novo box é uma nova forma de pensar no bem-estar animal. Vejam como ele
está quietinho e calmo. – Assegurou
Leônidas.
Brian agora anotava o que via e o
quanto estava admirado com a automação do maquinário.
— Todo ele é importado, senhor? –
Questionou o aprendiz.
— Diretamente do Texas.
— Caro. – Reiterou para si mesmo
Ailton.
Agora todos estavam acima da cabeça
do bovino.
— Esse tipo equipamento com
contenção da cabeça, é pensado justamente para melhoria do bem-estar animal,
meu povo. E também, claro, para a melhoria da carne. – Leônidas sorriu infame —
Ele impossibilita o movimento do animal, impedindo as oscilações de cabeça e
corpo acomodando maior precisão no disparo. – Logo abaixo um dos homens
vestidos de branco e luvas, posicionou a pistola no meio do crânio do animal
agora devidamente acoplada e munida com o dardo.
— Lá vai nossa belezinha. – disse
Leônidas enquanto todos olhavam atentos.
O empregado apertou o gatilho. Houve
um som abafado seguido de um mugido estridente, mas curto. As travas do box
soltaram o corpo do animal sobre as patas bambas que caiu babando uma mistura
viscosa de saliva e sangue. As patas estavam meio mortas, mas agitadas,
aparentemente recebendo impulsos elétricos do que restara do cérebro. Mais
especificamente do córtex frontal. Se rebateu até cair com os nervos
enrijecidos transformando-se no que parecia um boneco inflável de gás hélio.
— A laceração encefálica grave causa
inconsciência rapidamente. Impedindo a liberação de cortisol plasmático que
penetra na carne comprometendo a qualidade dela. – Lia Leônidas um pequeno
rascunho que havia tirado do bolso minutos antes — E causando assim também,
menos sofrimento ao animal, promovemos um abate humanitário, que pensa no seu
bem-estar.
Tudo era anotado por Brian, enquanto
Ailton e os demais assistiam aos abates subsequentes um tanto entediados.
Lá embaixo, o procedimento seguia
compassado, ordenado. Após a insensibilização, vinha a sangria: dois grandes
cortes na pele e nos grandes vasos do coração, deixando escorrer por 3 minutos.
Logo depois o preparo para a esfola: oclusão retal e banho. Na sequência a
esfola, a retirada dos pés, desarticulação da cabeça, abertura abdominal,
evisceração abdominal, serragem do peito, evisceração torácica, retirada dos
rins, serragem da carcaça, lavagem, carimbagem e finalmente câmara fria.
Ao fim da apresentação, todos haviam
retirado suas roupas brancas e saiam pelo grande portão principal da lavagem.
Por infortúnio, a eletricidade caiu no barracão do abate. Todos estavam a uma
distância curta do box, porém do lado de fora. De longe, Leônidas
observou uma inquietação lá dentro e dirigiu-se rapidamente para dentro outra
vez. A seita o seguiu.
— O que aconteceu rapaz? – Perguntou
ele enquanto via o último animal pular sangrando pelo nariz e boca com os olhos
saltados para fora, ruminando e chacoalhando o box. Os empregados
tentavam conter o corpo do bicho empurrando as barras laterais com as pernas.
— Senhor, a energia caiu bem na hora
desse aqui ó. – respondeu o carrasco com pistola em mãos — quando eu disparei a
pressão abaixou e o dardo não afundou na cabeça.
— Bah... Puta que pariu! – Resmungou
Leônidas tirando o chapéu e jogando nos braços de Ailton. Todos olhavam
curiosos enquanto Brian tentava anotar o que via.
— Largue esse teu lápis aí, piá. Tu
não viu nada. – A ordem foi obedecida.
Leônidas atravessou o galpão pisando
forte e corpulento, arregaçou as mangas, abriu um dos armários enormes e
enferrujados encostados na parede do barracão. Tirou de lá uma enorme marreta
com aço enegrecido que parecia pesar pelo menos dez quilos. Passou o arrastando
no chão coberto de serragem até o box.
— Abram logo essa porcaria, seus
inúteis. – Os empregados soltaram a pressão das pernas e puxaram para cima a
cancela do corredor. O animal saiu desnorteado com as patas trêmulas e babando.
Os olhos assustados estavam fixos, inteiramente negros e dilatados.
— Vem cá, vem seu bicho, vem... –
Leônidas levou a marreta para as costas encurvou-se, chegou perto furtivamente
do animal que agonizava no canto da arena e desferiu o primeiro golpe. Descendo
a marreta num movimento de 180 graus de trás para frente diretamente na cabeça
do bicho. Ele mugiu audível e estridente. Os espectadores foram tomados por uma
sensação de horror e todos os estagiários se puseram para fora.
Desferiu outro. E outro. E mais um.
Até sua camisa azul bebê perfeitamente engomada, perfeitamente passada e
perfeitamente limpa, ser colorida de sangue escarlate respingando por tudo em
volta. Seu rosto e seu bigode se encheram de gotículas vermelhas enquanto
golpeava o animal morto. O vermelho nas calças. Nas botas.
E uma poça de sangue se alastrou
pelo box de abate humanizado.
4
Naquela noite Ailton, Fernando e
Nilton (agora quase totalmente despertos) terminavam os últimos preparativos
para a recepção dos turistas da “semana dos meteoritos” nos quiosques da
Chácara dos Pés. Testaram os interruptores de três dos 7 quiosques com
churrasqueira, andavam de quadriciclo a gasolina pelo diâmetro da clareira.
Naquele miolo, calcularam que caberiam facilmente umas dez barracas grandes
para o camping. Haviam contratado um mini trailer para venda de bebidas
em parceria com o empório real. Dividiriam o lucro meio a meio, o que seria já
muito lucrativo para eles. Fernando e Nilton ficaram responsáveis pela montagem
da fogueira no centro do círculo dos quiosques. Após tudo devidamente testado,
Ailton observava os dois irmãos sob a luz do farolete e dos faróis dos
quadriciclos apontados para o meio da clareira. Na mão a longneck verde-transparente
se esvaziava. Recostado no seu quadriciclo, de regata preta surrada, chapéu de
palha, jeans e bota velha, analisava o alinhamento vertical de tocos de madeira
subindo. O rastro amarelo de luzes captava a flutuação da poeira e dos insetos
voadores num raio longo até os irmãos. Elas se cruzavam no meio do caminho
marcando uma sombra no campo de pontas hexagonais. Vinha vindo de lá os dois
retirando as luvas de couro quase ofegantes. Fernando vestia-se com um colete puffer
por cima de uma camiseta branca – que agora estava empoeirada –, “lembrança de
Barretos.” Calça rasgadas no joelho e coturnos de couro e camurça. Seus cabelos
eram ruivos como os dos irmãos, tinha sardas no rosto e nariz, lábios finos e
um olhar bobo. Assim como os irmãos. Nilton apenas não usava colete, e sua camiseta
era azul, com “Hard Rock Café’ estampado em letras neon garrafais ultrapassando
um círculo preto. Tinha um efeito quase 3D. Seus coturnos pretos eram os mesmos
dos irmãos, boné de aba curvada e esfolada cinza grafite. Se aproximaram do
quadriciclo de Ailton que agora tirava da caixa de isopor preso à garupa mais
duas longnecks de cerveja.
— Manda uma aí! – Ordenou bem
humorado Fernando. Ailton jogou para ele a uma distância curta. Havia sobrado
outra na mesma mão esquerda e na mão direita a que bebia. Ele sacudiu a garrafa
cheia para Nilton que chegava mais próximo calmamente alisando os cabelos.
— Vai?
— Ô! – Logo apanhou no ar a garrafa
verde quase fluorescente jogada por Ailton.
Estavam os três recostados no
veículo de Ailton que era preto e vermelho.
— Será que esse negócio vai render?
– Questionou Fernando enquanto olhava o grande círculo de quiosques.
— Ah, aposta hein. – respondeu
Nilton virando a garrafa a secando em poucos segundos.
— Vai dobrando o braço desse jeito
que cê vai ficar bebo daquiapoquim.
— Quero mesmo.
Os três gargalharam.
— Dia cheio demais, não dou conta. –
Continuou Nilton.
— Isso que cê dormiu até tarde, né
bonito.
— Bah... Antes ter ido no teu lugar
ouvir coisa chata da reunião. – Nilton fez um bico de desagrado e gesticulou
com o dedo do meio — A tarde o pai tava...
— Tava demais. Tu não sabe de nada.
– Reiterou Fernando.
— Eu não sei, rapaz? Não foi tu que
limpou o curral de abate chenhinho de sague, né?
— Fodeu lá? – Voltou Nilton.
— Meu filho...
Nilton e Fernando montaram uma
expressão de espanto com as sobrancelhas arqueadas.
— Deu na cabeça do bicho, né? –
Fernando puxou outra garrafa do isopor. Tirou a tampa com o dente emitindo um
pequeno estampido gozoso.
— Deu. – Respondeu Ailton olhando
para os dois irmãos com os olhos arregalados balançando a cabeça em tom
pesaroso. Fernando e Nilton pareciam terem mergulhado por um instante naqueles
olhos e contemplado uma gravação de cenas de horas atrás.
— O pai é louco.
— É mesmo, barbaridade.
Ficaram ali um tempo discutindo
sobre finanças, trabalhos, um pouco sobre o que acharam ser uma desproporcional
animosidade festiva na “semana dos meteoritos”, um pouco de garotas, e
como seus cérebros eram diferentes – coisa que fazia sentido para eles –,
intercalando com goles de cerveja e goles da garrafa de White-Horse achada
por acidente em um dos quiosques uma hora depois. Foram percorrendo a
propriedade embriagados, risonhos, trocando besteiras e coisas sem sentido até
a 00:40, Dia 14, ainda lua cheia que se mostrava prateada no céu escuro acima
do campo e adornada pelo Halo como um anel cintilante quase ilusório. Os
hotéis já recebiam os visitantes da véspera. A cidade no dia seguinte estaria
cheia pelo centro, marcando o início do final de semana glorioso daquele ano.
Natal e chuva de meteoritos. Talvez uma combinação mágica demais para um
planeta pouco atraente como a Terra.
Dentro de algumas horas aquele lado da Chácara
dos Pés estaria cheio de barracas e campistas olhando através de seus binóculos
as luzes cósmicas e agarrados a seus cadernos de desenho, observadores mais
experientes com telescópios sobre tripés de aproximadamente 70 centímetros de
altura, e universitários espojados à grama em lençóis coloridos ao embalo da
mística sonoridade de Grateful dead, Jethro Tull, Pink Floyd e
Morrison tocando em aparelhos MP3 com alto falantes ruins.
5
[1] Não confundir com o Hotel
Morotin localizado ao fim do novo centro de Santa Maria na região nordeste da
cidade. Também proximidades da Universidade Federal de Santa Maria, a mais
ou menos 9 km de distância do Centro
Unificado ou Novo Comércio.

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