Demonstrando Que a Consciência Pode ter sido o Grande Erro em Razão de Um Evento Cósmico Insignificante.


 




 















Em dezembro de 1999, Santa Maria, município do Rio Grande do Sul insigne pela sua beleza natural e portador de um aconchegante nicho cultural sitiante, seria o camarote VIP para a chuva de meteoritos prevista nos jornais locais e periódicos acadêmicos– sem tanta relevância – divulgados por astrofísicos das universidades do país. O jornal “Hora do Sul”, “Gazeta Popular”, “Tribuna Rio-Grandense” e “Giro Piratini” foram os principais noticiantes do grande evento cósmico do ano. Os noticiários de âmbito nacional também previram que o fenômeno seria muito mais apreciável exatamente naquela região, Santa Maria. Justamente pela posição do estado no Hemisfério Sul, localização esta que privilegiaria a entrada de luz atmosférica pela angulação do trajeto dos resquícios meteóricos observáveis do asteroide Phaethon, viajando a uma distância de mais ou menos 16 milhões de quilômetros da Terra. Os meteoritos geminídeos, – assim chamados porque se deslocavam da constelação de Gêmeos – seriam mais aparentes na região sul do Brasil até a patagônia argentina, o caminho astral mais visível a nordeste da constelação popularmente conhecida como Três Marias.  Este evento, de acordo com o prefeito da cidade, poderia render um aumento pela procura de camping, hotelaria e restaurantes de perceptíveis 0,12% em relação ao ano anterior. Uma projeção já muito otimista para a arrecadação fiscal de véspera de Natal. O que ele não esperava era que, esse número seria superado pela imprevisível tendência pós-adolescente arrependida por não ter se interessado avidamente pelos problemas da física no ginásio, culminando em uma multidão de adoradores inveterados de Sagan, Hawking, supernovas, buracos negros, filmes de viagem no tempo – destaque importantíssimo para De Volta para o Futuro; I, II, e III – e horrores extragalácticos superpoderosos. Ato fetichista tardio do jovem pós-moderno nem mesmo seduzido pela matemática, mas talvez somente pelo folclore sci-fi oitentista. O município de Santa Maria receberia uma revoada de pessoas dentro da semana que antecedeu aquele natal. Os dias 14,15, 16 e 17 seriam os mais importantes. Sendo na madrugada do dia 16 para o dia 17 a maior visibilidade luminosa desses resquícios extraterrestres, era importante que o campista – fetichista –, munido de seu binóculo e caderneta de desenho, se alocasse longe das luzes do centro e de preferência em alguma parte da região serrana nos arredores da cidade para melhor visualização do fenômeno. Os mais experientes, munidos de telescópios mais poderosos e caros, acomodariam seus aparatos sobre tripés de aproximadamente 70 ou 80 centímetros de altura logo ao lado de suas barracas perfeitamente montadas. Os universitários vindos da capital, se acomodariam ao lado de qualquer uma dessas barracas, se espojando à grama com lençóis coloridos e ao embalado da mística sonoridade de Grateful dead, Jethro Tull, Pink Floyd e Morrison tocando em aparelhos MP3 com alto falantes ruins. Fator responsável pela imersão psicodélica entre riffs de guitarra. Aquele chiado de vinil: outro fetiche oitentista. Uma vez devidamente alocados, não precisariam de nenhum aparato óptico macroscópico para a diversão de luzes, pois o forte efeito do LSD se encarregaria de distorce-las o suficiente para causar-lhes alucinações ainda mais interessantes que o próprio fenômeno em si. Os olhos chapados dos acadêmicos da classe média viajariam anos-luz a frente do seu tempo no espaço para vislumbrar o profundo nada que estavam prestes a construir. Ou também: A melhor elaborada fábula da revolução pós-moderna.

Dias antes da semana que ficou conhecida como “semana dos meteoritos” os hotéis Morotin e Paraíso despontavam em número de reservas. Muito em razão da sua popular vantagem custo-benefício sobre os outros dois grandes hotéis que, volta e meia abrigavam subcelebridades e novos empresários herdeiros de alguns milhares de dólares. Hotel Dom Rafael Premium e o Park Hotel Morotin[1]. Nenhum desses dois hotéis passavam por essa agitação naquela véspera. Prova de que herdeiros e subcelebridades relegadas ao ostracismo não possuem fetiches oitentistas. Um contrastante sintoma de boa saúde espiritual em comparação com a própria filosofia de vida dessas entidades. O Camping improvisado da Chácara dos Pés tornou-se ali o ninho da galinha dos ovos de ouro da temporada. Seus donos também eram herdeiros conhecidos da cidade de Santa Maria, e também estavam detestando toda a frenesi em torno de um evento – Segundo eles mesmos – tão insignificante quanto aquele, mas que tinham interesse quase sexual pelo dinheiro. Ailton, Fernando e Nilton, eram os três filhos mais queridos do Senhor Leônidas, fazendeiro despótico, conservador, mesquinho, traiçoeiro, e portador de todas as demais qualidades subentendidas nos adjetivos “fazendeiro” e “conservador”. A Chácara dos Pés tornou-se um haras no aniversário de Ailton, o filho mais velho, que, por sua vez, ganhou seu primeiro Puro Sangue aos 18 anos. Cinco anos mais tarde, a Chácara – que era uma repartição da vasta propriedade rural de Leônidas – contava com uma equipe inteira de veterinários e zootecnistas especializados em equinos nobres, e uma equipe de doma profissional orgulhosamente intitulada como “A nova doma humanizada de cavalos” ou “A doma que pensa no bem-estar do seu cavalo” ou “A doma do amor” – sobretudo, a mais enfaticamente importante – “Doma de Boas Mãos e sem esporas”. Essa equipe era composta por uma família de ex-montadores boiadeiros foragidos de Minas Gerais acusados pelo assassínio involuntário de um boi de rodeio – cruzamento das raças Nelore e Marchigiana – por causar-lhe uma overdose de Ketamina. Mas que pareceu aos irmãos, no entanto, uma ótima ideia elege-los para os cuidados de doma dos equinos.

2

 

Era dia 13. De dezembro. Período de indecisão climática bastante típica de regiões pseudo-tropicais. O céu limpo, claro, azul bebe, e os raios dourados do sol sem quentura, tonalizavam o dia com preguiça e sutil desinteresse por trabalho. Pelo menos era assim que se sentia Ailton diante do pai e cercado de estagiários da indústria agropecuária da região, que a julgar pelas suas expressões, sentiam o mesmo que ele. Posava de braços cruzados, os quais carregavam pulseiras de ouro. Camisa xadrez de manga curta dentro das calças jeans. Cinto com fivela prateada adornada com o que poderia ser ouro branco. Em alto relevo o desenho de dois bois Nelore, ou bois Senepol, não importava. Mascava um fumo e cuspia de minuto em minuto. O boné John Deere verde com o emblema bordado em linha dourada sombreava o rosto sardento. Nos pés as botas de couro de avestruz tinham cores mescladas na silhueta em tons de azul, como penas. Sujas de lama preta na sola. A barra da calça jeans clara também continha respingos escuros e crostas de terra. O corpo moderadamente acima do peso, despojava-se totalmente à-vontade, com o semblante moderadamente apático, que era também moderadamente apreciado pelo pai. Mas não muito. Até porque discursava naquele momento sobre algo de extrema importância para o futuro da sua fazenda de gado de corte. Este por sua vez se portava de maneira bem menos rude, – o que à primeira vista pode parecer chocante – estava no auge dos 50 anos. Era alto, tinha ombros largos e mãos na cintura calejadas e grossas, porém com as unhas bem cortadas. O chapéu branco com uma pena verde e um broche de nossa senhora de Fátima na fronte que reluzia como ouro a luz do sol. Na verdade, reluzia como ouro porque era ouro. Vestia camisa manga longa de linho azul bebe como o céu daquele dia; tinha a gola impecavelmente bem engomada.  Toda ela impecavelmente bem limpa e impecavelmente bem passada. O Jeans escuro poderia conter quaisquer resquícios de poeira, mas não aparentava estar sujo. Galocha preta de borracha por cima da barra da calça com sola amarela pouco gasta. Leônidas era uma imagem quase fantasmagórica rodeada de conjuradores de uma seita de camisas xadrez e bonés John Deere. Havia ali entre os 30 e poucos mais importantes empregados da sua fazenda, mais 16 estagiários de outras propriedades e 2 repórteres novatos de uma das revistas mais importantes de agronegócio do Rio Grande do Sul.  Entre as top 10, talvez fosse a décima. Ou a décima primeira, não importava. O título “top 10” era o que importava.

Diante do curral de tamanho considerável e cheio de gado, a pequena multidão se atinha ao homem levando as mãos a cintura ostentando bigode grisalho nicotizado e vestido com roupas aparentemente caras e limpíssimas. Curral imenso e retangular de proporção 40m x 30m contendo um boi para cada 2 metros quadrados. Ou seja, muitos deles. Ailton pensou que seria, inclusive, bastante divertido contá-los ao invés de ouvir o discurso acalorado do pai, porém previu que seria provavelmente cobrado pelos irmãos mais tarde a reproduzir aquele discurso para eles, uma vez que naquele momento dormiam em suas camas King Size Victória Gel com duplo amortecimento (realizando aquele desejo oculto dos corpos presentes no descampado verde sob o céu azul bebê). E não precisaria ser todo ele, até mesmo porque sua memória não era excelente. Conquanto que, conseguisse lembrar das leis que o pai não infringiria mais, estava de bom tamanho. Fernando fazia parte da equipe jurídica da administração da fazenda junto com Nilton. Ambos advogados recém formados em uma daquelas faculdades pagas cujo os donos pouca gente conhece bem as intenções salvo os escândalos de sonegação que são sempre muito cristalinos. O ponto era que estavam cansados de driblar fiscalizações e multas em prol do capricho antiquado do patriarca. Qualquer anuncio de mudança era para eles uma grande notícia, portanto.

Era 10:45 da manhã. A seita de camisas xadrez e bonés John Deere havia rodado as partes mais essenciais da propriedade quase infinita. A granja, o alambique, o plantio de soja, o plantio de milho, a ordenha das vacas – agora equipada com um maquinário automatizado que plugavam cilindros de metal nas tetas cheias de leite do animal, exaurindo deles todo o liquido branco após horas a fio de sucção – e aguardavam o Grand Finale que seria na câmara de corte. Enquanto os bovinos ruminavam e se agitavam logo ao fundo, um dos novos redatores da Revista Sul levantou o braço direito balançando a pontinha do dedo indicador freneticamente. Todos voltaram a atenção ao pequeno rapaz de boné preto, máquina fotográfica semiprofissional pendurada ao pescoço, camisa verde e jeans apertado, corado pelo sol e pelo constrangimento.

Leônidas ergueu o queixo e as sobrancelhas num gesto que poderíamos traduzir assim: “!”.

Puxou os lábios finos para baixo, montando uma expressão quase perfeita de nojo. Apontou para o rapaz e disse.

— O guri aí.

Este armou rapidamente a postura e foi. Olhava o velho de baixo se mostrando em cima de um pequeno palco improvisado de mais ou menos meio metro.

—  Senhor Leônidas, me chamo Brian. Falo em nome da Revista Sul...

— Sei!

— Então... gostaria de saber do senhor como ficará tua posição no agronegócio em relação ao acordo do Creas com a nova lei de n°5.095, dentro da Instrução Normativa Nº 3 sobre o Decreto nº 24.645 de 1934 que desautoriza o uso de marreta antes da sangria. – Encheu os pulmões de ar novamente ao terminar e levou o lápis para o pequeno caderno na mão esquerda.

— Boa pergunta, guri. Boa pergunta! Pergunta que irei responder mostrando a vocês o mais novo processo de insensibilização. Estamos de acordo com todas as mudanças, é claro, desde que não fira nossas tradições, nossas raízes, nossos valores. – Asseverou — Porém, pensando no bem-estar do bichinho e nas novas leis, gravem isto, nas leis... que a Fazenda da Restinga do Sul adota a partir de hoje o novo método de insensibilização. – Leônidas pigarreou, esperou alguns segundos antes de voltar. Brian levantou a mão novamente, mas foi interceptado pelo gesto de Leônidas: — Continuando...

— Pensando nas Leis. Pôs aí, guri? – Leônidas apontava para o caderninho do rapaz que se prontificou em anotar.

Pensando... nas... Leis. – Brian silabou mostrando ao senhor Leônidas o polegar para cima com sorriso quase sincero, o qual ele ignorou completamente.

—  Hoje vos apresento o Astramax 300 plus DD. – Leônidas balançou o indicador calejado para um assistente ao lado de Brian, tão indiscernível na aparência quanto seus companheiros da seita xadrez & John Deere. Ele carregava uma maleta cinza fosca na mão direita pela alça.  Chegou rapidamente a Leônidas destravando seus feches metálicos com sonoros “Clack, Clack,”.  A mão ossuda e desproporcional do velho fazendeiro agarrou o que lá estava ainda como um mistério para a plateia. Houve um som prazeroso de superfície lisa metálica se esfregando numa espuma acolchoada.

Quando puxou da maleta para os olhos do público, veio à tona o que parecia uma pistola com ponta cilíndrica e um avantajado volume no calço do pegador. Logo atrás um pequeno pino com rosca que supuseram todos que seria uma entrada para algum tipo de cabo ou peça. Era em suma grande demais para uma arma de fogo, moderna demais para ser algo letal. E que se todos soubessem definir talvez até alienígena demais para propósitos terráqueos.

Todos assentiram com a cabeça positivamente sem esboçar surpresa. Brian bateu uma foto com a câmera semiprofissional. E Retornou.

—  Tri!

— A partir de agora os animais serão abatidos de maneira humanizada com uma pistola de dardo cativo. Essa é a última tecnologia de pistolas. Mais precisas, e mais fortes. Conectadas a esse tubinho. – Mostrou ele voltando as costas do aparato para a plateia — vai o gás vindo do cilindro de pressurização. Noutra ponta sai o dardo do tambor da pistola diretamente para o crânio. Ou seja, sem sofrimento animal.

Ailton pensava aliviado que ele e seus irmão não precisariam se preocupar mais com os ataques de ativistas veganos e afins. Afinal, agora o abate era humanizado.

— A mudança no modo de abate tem a ver com a pressão jurídica por parte dos órgãos de fiscalização sanitária, senhor Leônidas? – Perguntou uma garota com seus 19 anos, boné John Deere sobre os capelos louros, camisa xadrez vermelha por dentro da calça jeans escura e apertada, rosto avermelhado pela falta de protetor solar e arrependimento.

— De jeito maneira, guria. Eu não tô no ramo há 50 anos para me dobrar prum bando de piazada cheia de frescura. – Fechou o semblante e ajeitou o chapéu nervosamente — E tem mais, as nossas tradições são as nossas tradições. Porém, lei é lei e como cidadão de bem, seguimos ela, mocinha. 

— Entendo... – respondeu ela.

— Meu pai, homem honrado demais, nasceu aqui. Trabalhou aqui, construiu isso aqui.

— Que Deus o tenha, vovô. – Ailton beijou o crucifixo preso a corrente de ouro no pescoço.

— O pai do meu pai também. E o pai, do pai do pai do meu pai também... Com nossos valores acima de tudo. Sempre. – Houve um silêncio enquanto Ailton dava palmas olhando os demais que entenderam o recado, logo, resultando numa salva meia boca.

3

Uma fileira de camisas xadrez variando cores entre o verde, vermelho e azul, se alongou pelo pátio de abate bovino. O setor de insensibilização era a primeira ala, a qual antes de entrarem recebiam roupas especiais e brancas para higiene do local e também para fugir do espectro cromático dos ruminantes. Neutralizando o risco de um possível ataque de stress.

Devidamente vestidos, seguiram senhor Leônidas às suas ordens o caminho do abatedouro. De tapinha em tapinha nas costas, cumprimentou os seis funcionários do abate, da lavagem, do carregamento, da dilaceração. A fileira de pessoas seguia ao lado da fileira de animais pré-selecionados mugindo calmamente pelos currais de descanso após jejum de 24 horas dos animais. Iam em direção ao grande maquinário hidráulico montado com mangueiras a jato de pressão média. Passaram pelo banho de aspersão de água clorada. Um a um, saiam pingados mugindo agitados com os olhos pretos como bolas de gude gigantes. Todos de pelagem branca. Com etiquetas enumeradas na orelha. Com cicatrizes de ferro quente na coxa. Mugindo e pingando.

— Vejam como nossa estrutura mudou. – Gritou senhor Leônidas. — Seguindo todos os protocolos.

Todos seguiam. Ailton era o último. Gravava o maior número de informações que seu cérebro conseguia naquele momento. Brian perguntou se poderia tirar algumas fotos.

— Antes da sangria, sim. Fique à vontade.

Ele foi registrando sem medir o foco da lente.

— Todos esses equipamentos são novas aquisições e pensados na melhoria do abate e no bem-estar animal.

A fileira de humanos se distanciou da fileira de animais subindo por uma escada de aço indo para uma estrutura acima. De lá era possível observar sem interferir com contato visual ao bicho.

            — Antes não havia toda essa tecnologia. Aquilo se chama box de atordoamento, onde o bovino é encaixado, vejam... – Leônidas apontou para baixo.

Logo a abaixo o caminho estreito cheio de bovinos descia uma pequena rampa na qual ao fim dela uma placa de metal se encaixava ao dorso do animal. Outras barras laterais estabilizavam a anca e a coluna. Outra placa de metal comprimia as costas para que a placa encaixada ao pescoço subisse imobilizando o corpo de quase uma tonelada.

— Vejam! Está tudo automático. Esse novo box é uma nova forma de pensar no bem-estar animal. Vejam como ele está quietinho e calmo.  – Assegurou Leônidas.

Brian agora anotava o que via e o quanto estava admirado com a automação do maquinário.

— Todo ele é importado, senhor? – Questionou o aprendiz.

— Diretamente do Texas.

— Caro. – Reiterou para si mesmo Ailton.

Agora todos estavam acima da cabeça do bovino.

— Esse tipo equipamento com contenção da cabeça, é pensado justamente para melhoria do bem-estar animal, meu povo. E também, claro, para a melhoria da carne. – Leônidas sorriu infame — Ele impossibilita o movimento do animal, impedindo as oscilações de cabeça e corpo acomodando maior precisão no disparo. – Logo abaixo um dos homens vestidos de branco e luvas, posicionou a pistola no meio do crânio do animal agora devidamente acoplada e munida com o dardo.

— Lá vai nossa belezinha. – disse Leônidas enquanto todos olhavam atentos.

O empregado apertou o gatilho. Houve um som abafado seguido de um mugido estridente, mas curto. As travas do box soltaram o corpo do animal sobre as patas bambas que caiu babando uma mistura viscosa de saliva e sangue. As patas estavam meio mortas, mas agitadas, aparentemente recebendo impulsos elétricos do que restara do cérebro. Mais especificamente do córtex frontal. Se rebateu até cair com os nervos enrijecidos transformando-se no que parecia um boneco inflável de gás hélio.

— A laceração encefálica grave causa inconsciência rapidamente. Impedindo a liberação de cortisol plasmático que penetra na carne comprometendo a qualidade dela. – Lia Leônidas um pequeno rascunho que havia tirado do bolso minutos antes — E causando assim também, menos sofrimento ao animal, promovemos um abate humanitário, que pensa no seu bem-estar.

Tudo era anotado por Brian, enquanto Ailton e os demais assistiam aos abates subsequentes um tanto entediados.

Lá embaixo, o procedimento seguia compassado, ordenado. Após a insensibilização, vinha a sangria: dois grandes cortes na pele e nos grandes vasos do coração, deixando escorrer por 3 minutos. Logo depois o preparo para a esfola: oclusão retal e banho. Na sequência a esfola, a retirada dos pés, desarticulação da cabeça, abertura abdominal, evisceração abdominal, serragem do peito, evisceração torácica, retirada dos rins, serragem da carcaça, lavagem, carimbagem e finalmente câmara fria.

Ao fim da apresentação, todos haviam retirado suas roupas brancas e saiam pelo grande portão principal da lavagem. Por infortúnio, a eletricidade caiu no barracão do abate. Todos estavam a uma distância curta do box, porém do lado de fora. De longe, Leônidas observou uma inquietação lá dentro e dirigiu-se rapidamente para dentro outra vez. A seita o seguiu.

— O que aconteceu rapaz? – Perguntou ele enquanto via o último animal pular sangrando pelo nariz e boca com os olhos saltados para fora, ruminando e chacoalhando o box. Os empregados tentavam conter o corpo do bicho empurrando as barras laterais com as pernas.

— Senhor, a energia caiu bem na hora desse aqui ó. – respondeu o carrasco com pistola em mãos — quando eu disparei a pressão abaixou e o dardo não afundou na cabeça.

— Bah... Puta que pariu! – Resmungou Leônidas tirando o chapéu e jogando nos braços de Ailton. Todos olhavam curiosos enquanto Brian tentava anotar o que via.

— Largue esse teu lápis aí, piá. Tu não viu nada. – A ordem foi obedecida.

Leônidas atravessou o galpão pisando forte e corpulento, arregaçou as mangas, abriu um dos armários enormes e enferrujados encostados na parede do barracão. Tirou de lá uma enorme marreta com aço enegrecido que parecia pesar pelo menos dez quilos. Passou o arrastando no chão coberto de serragem até o box.

— Abram logo essa porcaria, seus inúteis. – Os empregados soltaram a pressão das pernas e puxaram para cima a cancela do corredor. O animal saiu desnorteado com as patas trêmulas e babando. Os olhos assustados estavam fixos, inteiramente negros e dilatados.

— Vem cá, vem seu bicho, vem... – Leônidas levou a marreta para as costas encurvou-se, chegou perto furtivamente do animal que agonizava no canto da arena e desferiu o primeiro golpe. Descendo a marreta num movimento de 180 graus de trás para frente diretamente na cabeça do bicho. Ele mugiu audível e estridente. Os espectadores foram tomados por uma sensação de horror e todos os estagiários se puseram para fora.

Desferiu outro. E outro. E mais um. Até sua camisa azul bebê perfeitamente engomada, perfeitamente passada e perfeitamente limpa, ser colorida de sangue escarlate respingando por tudo em volta. Seu rosto e seu bigode se encheram de gotículas vermelhas enquanto golpeava o animal morto. O vermelho nas calças. Nas botas.

E uma poça de sangue se alastrou pelo box de abate humanizado.

4

 

Naquela noite Ailton, Fernando e Nilton (agora quase totalmente despertos) terminavam os últimos preparativos para a recepção dos turistas da “semana dos meteoritos” nos quiosques da Chácara dos Pés. Testaram os interruptores de três dos 7 quiosques com churrasqueira, andavam de quadriciclo a gasolina pelo diâmetro da clareira. Naquele miolo, calcularam que caberiam facilmente umas dez barracas grandes para o camping. Haviam contratado um mini trailer para venda de bebidas em parceria com o empório real. Dividiriam o lucro meio a meio, o que seria já muito lucrativo para eles. Fernando e Nilton ficaram responsáveis pela montagem da fogueira no centro do círculo dos quiosques. Após tudo devidamente testado, Ailton observava os dois irmãos sob a luz do farolete e dos faróis dos quadriciclos apontados para o meio da clareira. Na mão a longneck verde-transparente se esvaziava. Recostado no seu quadriciclo, de regata preta surrada, chapéu de palha, jeans e bota velha, analisava o alinhamento vertical de tocos de madeira subindo. O rastro amarelo de luzes captava a flutuação da poeira e dos insetos voadores num raio longo até os irmãos. Elas se cruzavam no meio do caminho marcando uma sombra no campo de pontas hexagonais. Vinha vindo de lá os dois retirando as luvas de couro quase ofegantes. Fernando vestia-se com um colete puffer por cima de uma camiseta branca – que agora estava empoeirada –, “lembrança de Barretos.” Calça rasgadas no joelho e coturnos de couro e camurça. Seus cabelos eram ruivos como os dos irmãos, tinha sardas no rosto e nariz, lábios finos e um olhar bobo. Assim como os irmãos. Nilton apenas não usava colete, e sua camiseta era azul, com “Hard Rock Café’ estampado em letras neon garrafais ultrapassando um círculo preto. Tinha um efeito quase 3D. Seus coturnos pretos eram os mesmos dos irmãos, boné de aba curvada e esfolada cinza grafite. Se aproximaram do quadriciclo de Ailton que agora tirava da caixa de isopor preso à garupa mais duas longnecks de cerveja.

— Manda uma aí! – Ordenou bem humorado Fernando. Ailton jogou para ele a uma distância curta. Havia sobrado outra na mesma mão esquerda e na mão direita a que bebia. Ele sacudiu a garrafa cheia para Nilton que chegava mais próximo calmamente alisando os cabelos.

— Vai?

— Ô! – Logo apanhou no ar a garrafa verde quase fluorescente jogada por Ailton.

Estavam os três recostados no veículo de Ailton que era preto e vermelho.

— Será que esse negócio vai render? – Questionou Fernando enquanto olhava o grande círculo de quiosques.

— Ah, aposta hein. – respondeu Nilton virando a garrafa a secando em poucos segundos.

— Vai dobrando o braço desse jeito que cê vai ficar bebo daquiapoquim.

— Quero mesmo.

Os três gargalharam.

— Dia cheio demais, não dou conta. – Continuou Nilton.

— Isso que cê dormiu até tarde, né bonito.

— Bah... Antes ter ido no teu lugar ouvir coisa chata da reunião. – Nilton fez um bico de desagrado e gesticulou com o dedo do meio — A tarde o pai tava...

— Tava demais. Tu não sabe de nada. – Reiterou Fernando.

— Eu não sei, rapaz? Não foi tu que limpou o curral de abate chenhinho de sague, né?

— Fodeu lá? – Voltou Nilton.

— Meu filho...

Nilton e Fernando montaram uma expressão de espanto com as sobrancelhas arqueadas.

— Deu na cabeça do bicho, né? – Fernando puxou outra garrafa do isopor. Tirou a tampa com o dente emitindo um pequeno estampido gozoso.

— Deu. – Respondeu Ailton olhando para os dois irmãos com os olhos arregalados balançando a cabeça em tom pesaroso. Fernando e Nilton pareciam terem mergulhado por um instante naqueles olhos e contemplado uma gravação de cenas de horas atrás. 

— O pai é louco.

— É mesmo, barbaridade.

Ficaram ali um tempo discutindo sobre finanças, trabalhos, um pouco sobre o que acharam ser uma desproporcional animosidade festiva na “semana dos meteoritos”, um pouco de garotas, e como seus cérebros eram diferentes – coisa que fazia sentido para eles –, intercalando com goles de cerveja e goles da garrafa de White-Horse achada por acidente em um dos quiosques uma hora depois. Foram percorrendo a propriedade embriagados, risonhos, trocando besteiras e coisas sem sentido até a 00:40, Dia 14, ainda lua cheia que se mostrava prateada no céu escuro acima do campo e adornada pelo Halo como um anel cintilante quase ilusório. Os hotéis já recebiam os visitantes da véspera. A cidade no dia seguinte estaria cheia pelo centro, marcando o início do final de semana glorioso daquele ano. Natal e chuva de meteoritos. Talvez uma combinação mágica demais para um planeta pouco atraente como a Terra.

 Dentro de algumas horas aquele lado da Chácara dos Pés estaria cheio de barracas e campistas olhando através de seus binóculos as luzes cósmicas e agarrados a seus cadernos de desenho, observadores mais experientes com telescópios sobre tripés de aproximadamente 70 centímetros de altura, e universitários espojados à grama em lençóis coloridos ao embalo da mística sonoridade de Grateful dead, Jethro Tull, Pink Floyd e Morrison tocando em aparelhos MP3 com alto falantes ruins.

5

Dia 15. Mais ensolarado do que de costume (O que fez as senhoras mais respeitadas dos clubes de fofocas da cidade se permitirem posar com as pernas de graveto à mostra esticadas nas calçadas em espreguiçadeiras – Elas reclamavam do calor não-sulista). Fernando, Ailton e Nilton haviam prometido que ficariam bêbados como gambás naquela noite, noite de abertura do Camping – super faturado – da Chácara dos Pés. Os quiosques para casais equipados com churrasqueira, cadeirinhas de praia com assentos de nylon coloridas e rede para balançar ficaram por 500 reais caso o casal não fosse consumir as bebidas disponibilizadas pela parceria entre o Empório da cidade e a Chácara. Por mais 350 reais, o casal estaria despreocupado com bebidas à vontade durante os próximos três dias de locação.

[1] Não confundir com o Hotel Morotin localizado ao fim do novo centro de Santa Maria na região nordeste da cidade. Também proximidades da Universidade Federal de Santa Maria, a mais ou menos 9 km de distância do Centro Unificado ou Novo Comércio.  

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