O taxidermista
O Taxidermista
Acordei atrasado. Olhei o relógio. Puta merda. Já tava na hora. Era o dia de cão. O que é muito comum pra uma segunda, mas numa sexta. Por favor. Precisava cuidar do cachorro do Sr. Valdez. Puta velho chato, com bafo e careca. Uma coisa que sempre me atormentou em pessoas calvas é ver aquele brilho cintilante no coco. Parece uma frágil casca de ovo prestes a ser esmagada por um martelo. Imagino uma calvície em mim, como um tumor; prestes a eclodir. Sexta-feira, dia de tomar meu uísque velho e barato. Apanho o copo na cantoneira perto de abajur, está sujo. Apanho o uísque em baixo da cama. Consegui ver claramente em minha cabeça uma barata defecando ou passando por cima do copo, lá pelas 03:00 da manhã, enquanto eu babava no travesseiro. Pronto; 09:45 da manhã e o copo de uísque ainda estava na metade e sem gelo nas minhas mãos. Estava quase cego, sem óculos. Dei o ultimo trago no uísque e desci as escadas no meu dormitório que dava acesso ao meu templo de imagens imaculadas. Meu cenário macabro. Sempre gostei. Bacana. Aves, bois, cachorros, gatos, papagaios. Todos ali. Nenhum deles vivos, mas ali. Com os olhos fixos em mim enquanto eu descia as escadas no anexo. É incrível como lidar com a morte pode ser tão divertido e reflexivo no meu ramo. Ver aquelas imagens cruas e mortas. Duras, empalhadas, fazia-me pensar o quão digno era ser um taxidermista. Um taxidermista não eterniza um nome, assim como um escritor se eterniza por sua obra. Ou um filósofo. Um taxidermista eterniza a morte, o que em minha opinião sempre foi algo muito mais difícil. O telefone toca. Já sei quem é. Atendo.
— Sr. Valdez. Como vai? — pergunto.
— Corta essa, papa-defunto. — escuto o velho resmungar. Otário.
— É pra hoje o meu cão.
— Sim, pode trazê-lo quando quiser, estou acordado e pronto.
— Eu quero que fique assim... Bem esplendido. — exigiu Sr. Valdez.
— Sr. Valdez, está em minhas mãos, esta nas mãos do grande Senhor nosso Deus. — respondo conclusivo pra botar aquele telefone no gancho duma vez. Não suportara ouvir a voz rouca e cansada daquele velho resmungão e exigente. — Bom, é bom! Ernesto era um bom amigo. Não fedia. Agora fede, mas tudo bem. Tem que andar logo com isso.
— Uh, uh. — escuto pacientemente o velho.
— Merece ficar pra sempre comigo. Não suporto a ideia de saber que aquele “rostinho” tão fofinho vai ser devorado pela terra, pelos vermes. Não posso deixar, não posso. Inacreditavelmente, pela primeira vez em três contatos, Sr. Valdez falara minha língua. Algo que me orgulho na minha profissão. Ta ai! É isso! Não dá pra suportar saber que algo que tanto se amou esta ficando podre e fedorento, para depois sumir para sempre. Deixando um esqueleto que não é aquilo que se amou um dia. É só um esqueleto. Muito triste. Triste! Talvez essa seja a maior mágoa dos seres humanos
quando alguém morre. É saber que aquilo vai feder. Assim como tudo na vida enquanto se está vivo. As pessoas se angustiam, porque sabem que “aquilo” vai feder. E também acredito numa forte necessidade de manter a ligação com aquilo que nós chamamos de imagem. A percepção do que amamos deve ser mantida. Como assim não ver mais este, ou aquele outro? Talvez não fizesse sentido querer deixar algo sem vida, estático com a aparência daquilo que se amou roubada pela morte mordaz e seca. Mas é um conforto. Talvez. Poucas coisas fazem sentido nesse mundo, inclusive morrer. Nascer.
— Sim, daqui quarenta minutos? Ok! Estarei esperando.
— Ótimo. Estarei aí. — o telefone desliga.
Coloco o telefone no gancho, olho fixamente para ele pensando que daria tempo de tomar mais um copo de uísque. Andar pelo salão das “peças”. Preparar as ferramentas para o trabalho. Voltar. Dar mais um trago. Sem chance. Mal movi meus pés o telefone volta a tocar. Atendo. Esse é interessante.
— Taxidermia Silveira! Recepciono. — Eu falo com... Sr. Dar..ril? Sr. Daril? — Daril Silveira. Em carne em osso e vivo. Ele mesmo. — rio. Boa piada. Não sinto isso no outro lado da linha, mas continuo. — Como posso ajudá-lo? Quem fala? Perdão! — Então, meu nome é Olavo. Eu liguei semana passada... Não sei se lembra! — Sim, claro. — finjo estar me lembrando agora como algo sem importância. Mas Olavo foi um excitante caso que escutei semana passada. O cara queria empalhar a esposa. Maluco. Isso me levou a pensar que estava maluco também por ter me animado com ideia. Nunca havia empalhado gente. Humana. Pessoas. Enfim. — Que bom que ligou. Você disse que precisava de algumas liberações dos familiares para empalhar sua esposa. Era sua esposa, certo? — finjo novamente; rompante de lucidez emergida do desinteresse.
— Certo. — ele responde prontamente.
— Ah certo! Então, correu tudo bem? — pergunto.
— Sim... É, até que sim. Olha Sr. Silveira — Daril, por favor! — entrevi educadamente.
— Certo! Daril. Olha... Nós teremos que cooperar um com o outro, entende? — não, Não havia entendido.
— Na verdade, não! — respondi estranho. Minhas sobrancelhas torceram. Como isso era difícil acontecer.
— Então, o consentimento da família foi fácil, até, sabe? Porem há uma parte jurídica, a qual eu não entendi muito bem. Que não me dá o direito de... bem... é... — Empalhar o corpo?
— Isso! Eu teria que, tipo... É... Como posso dizer?
— Roubá-lo? — já tinha sacado a dele. Filho da mãe. Mais trabalho. Mais dinheiro. Só precisava que ele me desse o alerta. Até faria um trabalho sujo mais teria que rolar mais grana no negócio.
— Não exatamente roubar o corpo. Olha. — começou a sussurrar no telefone. Aquilo me dava nos nervos. Ninguém sussurra na boca do fone anão ser uma puta ou um sequestrador. — Uh... Diga. — fiquei interessado.
— Então, eu apenas desviaria o corpo, tiraria da rota, você não precisaria fazer nada. Apenas empalhar. Ficar de bico fechado e me entregar a mulher. Só. — só, o caralho! Pra eu ficar de bico fechado cara, só pagando mais. E eu botei isso na cabeça dele.
— Tudo bem, como eu não quero problemas, e o serviço parece ter ficado mais arriscado, eu cobrarei o dobro. — pronto, filha da mãe. Me encha de grana enquanto empalhado sua mulher!
— 30 paus? Nem morto cara.
— Meu chapa, se quer o serviço, esse é o preço. Com todo respeito, mas é a porra de um cadáver de pessoa, eu posso tomar no cu com isso. — falei. Senti-o engasgar do outro lado da linha, nunca tinha sido tão vil com um cliente. — Tudo bem, tudo bem! Pago “vintinha”. Dez antes e mais dez depois que o corpo chegar — 25! — retruquei.
— Porra, cara! Não fode! — aposto que ele suava do outro lado. — É pegar ou largar, chefe! Você quem sabe. 25! Tudo adiantado. Garanto o serviço, sou bom.
—Tudo bem, fechado, o corpo vai ser entregue amanhã. É o tempo de o esquema funcionar aqui.
— Sem problema. Cheque sem fundo dá problema. Já vou avisando.
— Confia em mim, quanto a isso. Fechado?
— Fechado. Respondi. O Telefone desligou. Nenhum filho da puta dizia “Tchau” mais. Parece que bater o telefone na cara mostra algum tipo de virilidade. Ser macho. Estar bravo. Socar a mesa. Esse tipo de coisas que só quem não é macho mesmo faz. Só pra parecer.
Coloquei o telefone no gancho novamente. Esperei um pouco sem pensar em nada, esperando outra ligação. Ninguém. Ótimo, outro trago. Subi correndo as escadas. Faltava cinco minutos pro velho chegar com o cachorro fedorento. Caminhei rapidamente até o quarto, apanhei o litro de uísque e desci correndo novamente. Ótimo. Enchi o copo. Dessa vez até a boca. Dei um trago que me fez engasgar. Puta merda. O dia começara bem. Um cachorro e uma mulher. Teria mais. Mais dinheiro. Andei pelo saguão acendendo as luzes. Pouco a pouco na penumbra os mortos apareciam. O ateliê ficava fechado sempre. Nunca abrira para ser visitado. Tive o trabalho de deixar o telefone na faixada, mais nada. As paredes jaziam cabeças de todos os tipos de animais. Ai pensei: “nunca de uma mulher. Gente. Ser humano. Que loucura”, mas ele levaria o corpo para casa. Doente. Dei a volta no balcão onde guardava os contatos dos clientes. Peguei um numero. Não, esse não. Amassei o papel e joguei na lixeira. Sai do balcão e fui até a sala de “operação”. As ferramentas brilhavam sorrindo para mim, prontas para serem usadas. Contemplei-as como um senil contempla uma camisa de força. O lance de ser taxidermista nesses tempos, é que parece um trabalho secreto. Todos sabem que existem, mas ninguém sabe exatamente onde, ou até mesmo, com quem falar. — Na fluidez da loucura, com apego ao material e sem ter licença, aprendi a fazer com meu pai, e quando morreu toquei os negócios. Tinha um fiscal corrupto por traz que eu podia corromper com uns trocados. Aprendi com meu pai ao vê-lo sozinho fazendo esse trabalho, sob esse mesmo teto, por anos. Um taxidermista necessita de especialidade, diploma, conhecer medicina. Eu não tinha nada disso. Mas tinha dinheiro. Veio a ser útil pra me despistar. Pra maioria meu pai não morreu. Mas era eu quem estava nos negócios. Tudo que me
trouxe aqui surgiu de uma flui-dez mórbida a qual me dava um gosto amargo na boca, mas me fazia alegre. Assim como a bebida. Talvez por isso fosse tão acostumado e beber, talvez por isso gostasse tanto. Não sei. A vida explicada numa garrafa de uísque. Nunca me casei. Putas não casam e as mulheres de bem não gostam do que me faz bem. Meus pais mortos. Sobrou eu para mim mesmo. Maldita solidão. Maldita solidão que eu aprecio. Maldito trago que me embriaga. Malditas estátuas mortas que adornam meus sonhos, minha realidade, meus demônios. Lembro de ter lido uma vez, sobre um filosofo, que dizia que os animais não tinham alma e por isso não tinham inteligência. Ser humano é ser um ser com alma. É ser percebido por Deus e ter inteligência. Isso não fazia sentido. Talvez eu nunca tivesse entendido o que isso significava. Sem alma ou não a morte era tão incerta quanto qualquer outra. Se tivéssemos alguma ligação cósmica ou divina com uma inteligência divina, talvez assim soubéssemos mais sobre a morte e não a temeríamos.Talvez não chorássemos. Entenderíamos de fato, o porquê estar e “não estar”. A vida flui estranhamente. Alguns entendem outros fingem. Mas os que entendem se omitem e os que fingem denunciam a própria ignorância constantemente. Mundo cão. Vida maluca. Dou mais um trago. A bebida desce queimando. Parei e olhei meu ultimo trabalho. Era um urso. Um amigo havia abatido nas montanhas de não sei que lugar. Não sei. Os animais não têm alma, mas conseguiam dissimular isso muito bem. A campainha toca. Já sei quem é. Deixo a bebida na estante ao lado das ferramentas. Corro até a porta. Destranco-a, antes de abrir olho pelo olho mágico. É ele. O velho segurando um saco plástico preto. Certamente com o cão dentro. Vestia uma boina xadrez horrível, todo empoado pelo frio com roupas felpudas. Bem coisa de velho. Abri a porta com um sorriso falso.
— Que bom que chegou! Está tudo preparado. — estendi a mão para cumprimentar. Em vão. — Ótimo! — o velho continuou segurando o saco.
— Faça certinho o trabalho e será bem recompensado. Cinco mil?
— Exato, Sr. Valdez, 5 mil. Prazo de uma semana. — peguei o saco. Sr. Valdez deu uma olhadela rabugenta apontou o dedo e disse algumas outras asneiras as quais não fiz questão de escutar direito.
— Obrigado! Obrigado! Sr. Valdez, até mais. — pronto. Precisava cuidar do cachorro. Levei-o para a mesa, retirei-o do saco preto. Puta merda. O cão era pesado à beça. Corri para frente do galpão e coloquei um LP do Dylan no toca disco. Trabalhar ao som de musica é bom. Ouvir musica era bom. Era como se o sincronismo com as minhas ações fosse ativado. A música tem o poder ou a capacidade incrível de te colocar exatamente onde você está. Te situar no tempo das suas ações. Na fluidez dos seus pensamentos. Coloquei as luvas, a máscara. Peguei a garfada de uísque, enchi o copo e dei mais um trago. Perfeito. É estranho parar para pensar mesmo no que se faz. Se situar. As pessoas vivem com medo de morrer. Elas vivem. Mas com medo. Chega uma hora que é preciso questionar o porquê de tanto medo. Será isso normal? Pensar ou se angustiar frequentemente com a morte. O problema deve ser a incerteza. Tanto do que será quanto do que se é. Essa constante mutabilidade faz as decisões das pessoas se transmutarem de tempo em tempo. Entram em contradição consigo mesmo. Não sabem quem são. Nunca sabem. E pensar em deixar essa vida sem ter se conhecido é uma foda. Isso me leva a pensar sobre meus medos. Todos os dias. O que eu realmente faço? Não sei. Empalho corpos de animais. Agora terei a oportunidade de fazer isso com um corpo humano, mas não sei por onde começar.
Tenho coisas de lado atrasadas. Cuecas que eu não lavei. E merda do encanamento quebrado. Nossa. A foda maior é perceber que esses triviais problemas se fundem tão facilmente com a profundidade na minha existência. É como dizer que estou prestes a morrer de angústia, mas a TV precisa ser consertada, a contas precisam ser pagas. Há outras pessoas no mundo. Eu sou apenas mais um. Mas minha vida é tudo que eu tenho, e isso ainda não é nada. Pra que pagar as contas se a vida fica por um triz a cada passo dado? Por que devo me prender, me ater a isso? Talvez seja carência. Talvez seja a distância entre mim e a faca. Mera coincidência. Mero acaso. Viver se atendo a questões triviais torna a existência importante. É como planejar um piquenique pra manhã seguinte. Como planejar casar e ter filhos. E pensar que isso faz com que se distancie da morte de alguma forma. Você coloca uma corrente com uma bola pesada na extremidade e arrasta aquilo vagarosamente, como se quanto mais peso estiver carregando, mais lento será o caminho para a morte. E o pior é ver que eu saio desse âmbito para vê-lo. Vejo um quarto imundo, com a poeira sendo arrastada para baixo do tapete. Os insetos esperam a vigilância ceder para vasculhar o lugar. Penso errado, concluo. Besteira. A morte é questão mais de circunstancia do que de tempo. É um jogo de azar. Jogar dardos na parede e errar o alvo. Viver é vago e dispensável nos fim das contas. Precisava de mais esmalte e cola. O corpo do cachorro fedia mesmo. Mas não era problema, eu fazia trabalhos tardios mesmo. Não era comum pegar um corpo “ultrapassado” pra fazer. Eu talvez fosse o único que encarasse isso. Sai pra comprar o que precisava. As pessoas estavam cinzas. Pálidas. Mas eu não conseguia diferenciar. Fazia frio e meu corpo tremia. Atravesso a rua e dou de cara com o fiscal. Resolvo entrar no bar antes de ir até a loja para comprar os aparatos. Entro e avisto um rosto bonito de uma mulher. Ela serve bebidas. Ela se aproxima.
— Poço ajudá-lo? — pergunta simpática.
— Sim, por favor! Um Gim, puro. — fecho os olhos. Odeio Gim. Não era meu dia mesmo. Podia ter pedido uísque, mas eu não sabia o porquê estava pedindo Gim, não me importava também o copo já estava na minha frente.
— Prontinho. — disse a mulher me apresentando o copo. Agradeço e mato a bebida de uma vez. De soslaio consigo perceber que um cara se aproxima. Reconheço que é o fiscal, mas ele não me reconhece com chapéu. Amauri. Esse é o nome do sujeito. Ele apenas sabia que certa quantia tinha que sair daquele ateliê sombrio da esquina da rua uma vez por mês e nem era eu quem entrega a grana. — Com licença. — se aproximou.
— Toda.
— É o Sr. Silveira?
— Depende. — respondo.
— Depende...?
— Depende, ué! Se for dinheiro, vou avisando que só recebo o cheque daqui uma semana. — Ah sim! — um rapaz muito educado com a ponta do nariz vermelha pelo vento frio e bobo. Feito um palhaço. — Posso aguardar então?
— Aguarde! Como sempre, o dinheiro vai chegar até você e nem precisa falar comigo. — Ah sim, claro. Eu sei, eu sei.
— Algo mais? — perguntei ríspido.
— Não.
— Então chispa, que eu to nervoso. — o sujeito arrumou-se assustado e pulou para a outra mesa. Mas não saiu do bar. Eu paguei a bebida e sai. Era hora de comprar os produtos. Fui até a loja peguei o que precisava e a conta saiu fora o eu que pensara. Droga. Dane-se. Não iria fazer nada mais com o dinheiro que sobraria, caso tivesse sobrado. Só iria me vangloriar cegamente por ter “vencido” a apostinha que fazia comigo mesmo nas contas. “Isso vai custar tanto!”. Custou menos. Ganhei. Como existir tornara-se mesquinho.
Volto ao ateliê, destranco a porta e entro. Logo batem. Abro novamente nervoso. Percebi que vivo nervoso e não há cristo que me devolva paz nesses tempos de confusão. Era Olavo. Ele trazia uma caixa enorme e pesada. O corpo da mulher estava dentro. Trazia numa espécie de carrinho, daqueles que se usam muito em transportadoras. — Posso entrar? — pergunta. – Está frio aqui e tem um... Bom, você sabe! — Sim, claro. Eu sei, entre! Desculpe. — meus olhos estão vagos. Alguma coisa tava errada comigo. Olavo entrou eu fechei a porta frontal. O cachorro estava fedendo na maca logo ao fundo do ateliê. Olavo admirou as cabeças dos animais na parede, o Urso perto do espelho. Os esquilos. A cabeça alce. Os passarinhos. Todos na penumbra. Ele disse: “Uau”. Eu disse: “Pois é...”. Olavo passou com o carrinho então, eu o direcionei para os fundos e pedi para que deixasse o corpo na outra maca. Ele abriu a caixa enorme e comprida e eu pude ver a mulher morta e nua. Poxa. Estava conservada... Não! Tinha algo errado.
— Ela está conservada demais! — exclamei
— Pois é, na verdade ela faleceu mesmo ontem à noite.
— Mas você havia me ligado semana passada. — retruquei espantado. — Pois é... Ela estava em coma semana passada. Mas o cérebro estava morto. Então a demos como defunta. — Olavo era gordo e respirava pesado, os óculos na ponta do nariz escorregando fora ajeitado rapidamente pelo dedo do meio gordo. — E a família? Como fez pra trazer o corpo? Não seria amanhã? — Olha, seria, mas foi muita coisa... Você não iria querer saber, sério. — advertiu. Eu pensei. Realmente não quero saber. Sabe-se lá Deus como ele fez isso. Sabe-se lá se Deus existe.
— Tudo bem, tenho dois serviços até o final dessa semana. — conclui. Olavo me passou o cheque gordo. Ótimo. Poderia ligar pro enganador vir e arrumar aquela porcaria. Comprar outra TV. Trocar as lâmpadas que faltavam. Dormir. Cagar em paz. Tudo certo. Achara meus óculos enquanto conversava sobre coisas aleatórias com Olavo. Calcei os óculos na cara, e olhei bem de perto a defunta. Além de preservada era linda. Peitos, quadril bonito. Só estava definhando.
— Tudo certo então. — eu disse.
— Tá ótimo! Obrigado, viu! Fico agradecido.
— Não tem de quê. — respondi com os olhos pesados em cima da defunta. — E outra coisa! Se você for um desses necrófilos malditos, e eu descobrir que você enfiou qualquer coisa nela eu volto de enrabo você.
— Uh, sem problemas. — eu nunca fui enrabado.
Olavo apontou o dedo sem dizer nada, torceu o olhar bravo, sorriu e correu embora. Gritou: “Até semana que vem”. A porta fechou-se. Acho melhor dormir. Pego o corpo, ajeito e deixo “pronto”. Precisava apenas descansar. Antes, liguei para o encanador.
Tudo certo. Bato o telefone. O encanador é careiro, tava com a agenda cheia e só viria daqui a três dias, mas tem a voz de um senhor calmo. Subo as escadas embriagado. Preparo a cama e rodo pelo quarto. O que era tudo aquilo lá em baixo. Para falar a verdade eu nunca soube, mas por alguma razão aquilo me afligia. Quem eu estava construindo, afinal, com quase 50 anos de idade, cabelos grisalhos, bigode curto e pele enrugada? Uma mulher estava prestes a ser empalhada e eu nem sabia se isso era possível. Não sabia por onde começar. Queria dormir. No sonho eu me perco em várias cabeças gigantescas. Há uma saída que eu não alcanço. Parece meu ateliê, mas com mais cor. Ouço risadas e percebo que estou correndo pela rua pelado. Caio num buraco fundo. Vejo uma pá me jogando terra. Acordo. O travesseiro estava encharcado e eu nem sabia que horas eram mais. Desci com o uísque na mão e os corpos estavam lá. Na verdade fazia dias que eu não dormia. Fazia dias que estava confuso. Eu não precisava de um encanador nem da TV. Não precisava daquele dinheiro nem continuar ali. A mulher era bela mesmo. Muito bela. Me dei conta de que não seria possível concluir o trabalho. Nenhum dos dois. Me lembrei que guardava calmantes fortes na ultima gaveta do primeiro móvel da entrada. Fui até a gaveta, peguei o remédio e tomei uma cartela. Eu nem sabia o porquê estava fazendo aquilo. Às vezes as pessoas se sabotam pro seu próprio bem, eu acho. Mas que fim levaria aquilo? Ao fim? Ao fim. Talvez não fosse tão ruim acabar. As criaturas na parede me assustavam. Enchi meu como com uísque e dei um trago. Dei dois. Matei um copo. Dois. Virei a garrafa. Não via mais nada. As cabeças dos animais se aproximavam mais e mais. Eu rodava pelo ateliê desnorteado. Eles iriam me devorar? Tirei minhas roupas sem motivo. Fui até os fundos e olhei o cão e a defunta. Tudo tão frágil. Eu já estava nu. Não havia muita coisa que me diferisse do estado da mulher ou do cão. Ela tinha um belo rosto. Tudo rodava. Meu mundo estava acabando. Será que morrer era assim? Eu perguntei e minha consciência não soube responder, talvez já estivesse morta. A esperança morre nas mãos da vivência. A morte cala a certeza. Tudo tão estranho e confuso. Não havia ninguém comigo. Talvez nem fosse real. Mas àquela altura nada era. Aproximei-me do corpo da defunta e imaginei se fossemos um casal morrendo juntos. Seria belo. Deitei-me na maca, nu, ao lado dela nua. Meu cérebro dava piscadelas de sobriedade, mas não voltava mais. Aquela era a hora que eu mais esperava. Resolvera abandonar a necessidade das coisas triviais e focar na verdadeira face da vida. Que no caso, era a ausência. Não era tão ruim. O encanamento continuaria ruim, a TV quebrada, as lâmpadas sem trocar. E tudo iria acabar como realmente era. Nada. Uma lâmpada queimada. E pela primeira vez eu não me preocupava. Havia um corvo empalhado perto da maca. Deitei-me com a defunta e encarei seu perfil um instante. Fechei os olhos e vozes sussurrantes surgiram. Os olhos dos animais me cercavam, mas eu não estava delirando, estava vivendo a verdade. Meu estomago doía e resmungava. Vomitei sangue na maca, mas não liguei. Continuava de olhos fechados. Eu vi a pá com terra me enterrando. Até que cai num breu e só conseguia ouvir uma voz delicada bem ao longe. Olhei para trás e vi minhas coisas amontoadas, poeira, coisas fora do lugar, a TV quebrada, as lâmpadas queimadas e vi ilusões. Agora a verdade me apontava outro caminho. E fui seguindo, seguindo para longe daquela confusão transitória e dispensável, para o nada. Pouco a pouco até que não me vi mais e tudo se apagou duma vez, como se nunca tivesse existido.

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